‘GTA VI’ é filme interativo de primeira

Antes de qualquer coisa, um aviso importantíssimo. GTA IV não é um jogo para crianças ou adolescentes. É um game feito para maiores de 18 anos, com temática adulta e história com elementos apropriados apenas para adultos. Avisos dados, vamos ao jogo…

GTA IV não é um simples simulador sangrento de assassinato e estupro, como a imprensa desinformada costuma defini-lo. Tem um monte de violência, isso é inegável, mas - na maioria das vezes - a brutalidade dos atos perpetrados depende diretamente da moralidade de quem segura o controle do videogame na mão.

Você decide o rumo da história de acordo com sua vontade. Cada escolha tem uma conseqüência. Não existem pontos por mortes ou atropelamentos. Na verdade, existe dinheiro, como na vida real, e coisas a serem feitas para ganhá-lo. Como você as faz depende inteiramente da sua cabeça.

GTA IV consegue passar a sensação de visitar uma cidade real, com gente real, superando qualquer tentativa anterior - mesmo dos primeiros jogos da série GTA - de oferecer imersão total em um ambiente virtual. Você se sente na pele do personagem principal, se preocupa e acaba ponderando sobre as escolhas que podem afetar seu futuro.

Passei 20 horas em Liberty City, a cidade virtual do game que foi inspirada em Nova York, e fiquei impressionado. Ao andar na rua, você ouve pessoas conversando, cuidando de suas vidas. Entidades digitais que se parecem muito com gente de verdade, que discute, que ri alto. Dá para passar horas só escutando o burburinho.

Pessoalmente, nunca fui muito fã do estilo GTA de jogo. Jogava algumas horas só para constar. Matar pessoas virtuais perde rapidamente a graça quando não existe uma história que justifique a matança. Os GTA anteriores tinham um roteiro relativamente bom, mas não eram suficientemente densos para mim. GTA IV é radicalmente melhor. A história do game é rica e recheada de conflitos.

O protagonista Niko Bellic é forçado a participar de atos violentos, mas sempre o faz de maneira relutante. E, se você se permite embarcar na história e vivenciar esse conflito interno, pode ser muito interessante. De acordo com suas escolhas, você consegue uma experiência de jogo diferente da de outra pessoa.

Você opta, por exemplo, em matar ou não um chefão do crime. Se o matar, acaba ganhando respeito nas ruas, enriquece e se muda para um casarão com mulheres, armas e coisas caras. Mas tem sempre alguém querendo cortar seu pescoço e a polícia não o deixa em paz.

Mas, se quiser, você deixa Niko à margem da criminalidade pesada, vivendo feliz e usufruindo de Liberty City, mas sem dinheiro, no humilde apartamento de seu primo. Eu preferi seguir o caminho da redenção, deixar a vida de crimes para trás e explorar todas as possibilidades que a cidade oferece.

Andei de carro pelas ruas, assisti a programas de TV e ouvi muita música. Comi cachorro-quente, caminhei pelas ruas, comprei roupas e, nesse meio tempo, tirei o primo de Niko de algumas enrascadas - ele se meteu com uns tipos barra-pesada - e até arranjei uma garota.

O game tem tantos segredos que os fãs fizeram um mapa indicando tudo o que pode ser descoberto no game, como o coração pulsante da Estátua da Liberdade. Confira em http://grandtheftauto.ign.com/maps/1/Liberty-City-Map.

O que separa GTA IV de um massacre insano e acéfalo é sua história genial. Se a violência do game - que sinceramente é a mesma de qualquer blockbuster do naipe de Duro de Matar - for separada do contexto, realmente o jogo é uma horrível viagem niilista pelo lado mais torpe da humanidade.

Game não é só uma orgia de violência

Grand Theft Auto IV foi lançado e eu estou animada. Mas é só mencionar a série GTA para meus amigos não jogadores que eu ouço que ela é horrivelmente violenta, beirando o pornográfico, e que grande parte do jogo consiste em encontrar maneiras criativas de assassinar prostitutas. E, apesar de eu ser uma mulher que joga, eles insistem que o jogador típico é o adolescente que está à beira de se tornar um assassino em série. GTA é muito mais hipnótico do que essa caricatura sugere. E não é um jogo feito para adolescentes. Exatamente como toda a série GTA, Gran Theft Auto IV é - felizmente - um jogo para adultos. Com as gangues de rua como pano de fundo, o game conta com a costumeira mistura de brigas com tiroteios. Mas esses momentos violentos não são o que faz os jogos da série GTA agradarem, pelo menos para mim. Eu gosto de vagar pelas ruas da cidade, vendo o sol nascendo e se pondo. O nível de detalhes em GTA IV é tão grande quanto o nível de imersão que ele proporciona. GTA IV é uma espécie de Sim City - um jogo muitas vezes considerado ‘educacional’ - feito para adultos. Em Sim City, o jogador cria uma cidade em miniatura, ao mesmo tempo que pode destruí-la com um vulcão. E isso não faz de ninguém um incendiário na vida real. GTA funciona da mesma forma. É como brincar de polícia e ladrão, é como sonhar acordado ou escrever um romance policial. Naomi Alderman (The Guardian)

Fonte: O Estado de S.Paulo - Link - 12/05/08

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